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Lito Sousa: como superlaboratório brasileiro estuda proteína ligada a doenças raras como a do influenciador

Entenda como funciona a Creutzfeldt-Jakob, doença do influenciador Lito Sousa O diagnóstico recente de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) do piloto e influenc...

Lito Sousa: como superlaboratório brasileiro estuda proteína ligada a doenças raras como a do influenciador
Lito Sousa: como superlaboratório brasileiro estuda proteína ligada a doenças raras como a do influenciador (Foto: Reprodução)

Entenda como funciona a Creutzfeldt-Jakob, doença do influenciador Lito Sousa O diagnóstico recente de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) do piloto e influenciador Lito Sousa chamou a atenção do país para uma condição neurológica rara, degenerativa e sem cura conhecida. Enquanto a família dele busca tratamentos experimentais no exterior, cientistas brasileiros também tentam entender a origem desse tipo de doença. Uma das frentes de pesquisa busca responder a uma pergunta fundamental: por que uma proteína normal do organismo muda de comportamento e causa danos irreversíveis ao cérebro? Para investigar isso, cientistas usaram o Sirius, superlaboratório brasileiro instalado em Campinas (SP). A estrutura funciona como um “raio X superpotente”, capaz de analisar átomos e moléculas. O local usa uma tecnologia avançada que existe em apenas três equipamentos no mundo. Foi ali que pesquisadores analisaram a proteína envolvida nas doenças priônicas, grupo do qual a doença de Lito faz parte. 🔎 Doenças priônicas são raras e fatais. Elas acontecem quando uma proteína normal do organismo, chamada PrPC, muda de forma e se transforma em um príon. Esses príons podem fazer outras proteínas também se alterarem e se acumularem principalmente no cérebro, causando danos ao sistema nervoso. O trabalho foi publicado na revista científica Science Advances em 2023 e não tem relação direta com o caso de Lito Sousa. O objetivo foi entender as etapas iniciais das mudanças que a proteína sofre no cérebro. Estamos no campo da ciência básica, tentando entender o efeito de alguns componentes presentes no neurônio sobre a formação desses condensados. Isso pode contribuir nesse sentido, porque ainda há muitas perguntas em aberto. [...] A gente não vai desenvolver um medicamento; infelizmente, isso é algo muito, muito complexo. O que acontece com essa proteína? A proteína príon existe naturalmente no organismo e está presente nos neurônios. Nas doenças priônicas, ela muda de forma. A partir daí, outras moléculas iguais também se alteram e começam a se acumular. Esses acúmulos causam a destruição dos neurônios. Uma das dúvidas dos cientistas é justamente entender como começa a transformação dessa proteína e por que ela começa a mudar para essas estruturas patológicas. O estudo se concentrou em pequenas estruturas chamadas condensados. Para visualizar, pense em gotículas muito concentradas de proteína. As moléculas ficam reunidas em um mesmo espaço, mas ainda conseguem se movimentar enquanto a gota continua líquida. A questão é o que acontece quando essa consistência muda. “Quando essas gotas ainda são líquidas, a gente não observa uma estrutura patológica. Porém, em algum momento, elas podem passar por um estado intermediário, formando algo gelatinoso, até chegar a um estado sólido”, explica a cientista. Superlaboratório Sirius, em Campinas Reprodução/EPTV Quando a 'gotícula' começa a endurecer Nos experimentos, os pesquisadores observaram que as gotículas continuavam fluidas na presença de cobre, um elemento que também existe nos neurônios. Depois, eles simularam uma situação de estresse oxidativo, quando há excesso de moléculas que causam danos às células. Para isso, usaram peróxido de hidrogênio. Com isso, o comportamento das gotículas mudou. “Esse condensado vai endurecendo. Temos, portanto, essa transformação do estado líquido para um gel ou um sólido”, explica Aline. Os cientistas observaram que, na presença da substância, as proteínas formavam estruturas rígidas. Segundo Aline, essa evolução já foi associada a doenças. É aí que entra o Sirius Parte dessa mudança foi analisada na Cateretê, uma das estações de pesquisa do Sirius. Para gerar a luz usada nos experimentos, elétrons são acelerados quase à velocidade da luz dentro de um túnel de 500 metros. Eles percorrem esse espaço cerca de 600 mil vezes por segundo. Ímãs muito potentes desviam a trajetória desses elétrons, produzindo a chamada luz síncrotron, invisível a olho nu. O feixe usado nas pesquisas chega a ser cerca de 30 vezes mais fino que um fio de cabelo. Na estação Cateretê, os pesquisadores usaram uma técnica avançada de raios X, chamada XPCS. Técnicas convencionais já permitiam observar o tamanho e a forma das gotículas. O diferencial do Sirius foi conseguir responder a outra pergunta: como as proteínas se movimentavam lá dentro? “As proteínas são estruturas extremamente pequenas e têm uma organização muito complexa. Quando elas formam esses condensados, estamos falando de gotas micrométricas. Tentamos identificar qual é o estado físico da proteína dentro dessa gota micrométrica. Para isso, precisamos de muita resolução espacial e temporal, que equipamentos como o Sirius conseguem fornecer.”, detalha Aline. Ao medir esse movimento, os pesquisadores conseguiram identificar se a gotícula ainda se comportava como um líquido ou se estava ficando mais rígida. Cateretê, uma das estações de pesquisa do Sirius, durante a fase de montagem Cristiane Duarte/CNPEM O que isso tem a ver com a doença de Lito? A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) faz parte do grupo das doenças priônicas. Por isso, entender o comportamento dessa proteína pode ajudar a preencher lacunas sobre a condição. Mas não é possível transportar diretamente os resultados do laboratório para o caso de um paciente. Aline ressalta que os cientistas ainda não sabem se a formação dessas gotículas rígidas faz parte do processo da DCJ. Os experimentos foram feitos em laboratório, com modelos que simulam o ambiente das células. Por isso, o estudo não mostra que o cobre ou a água oxigenada causem doenças como a de Lito Sousa, nem aponta um tratamento. A contribuição vem antes. O objetivo é entender as mudanças na proteína e os mecanismos que levam à formação de estruturas prejudiciais ao cérebro. “Acho que ficou muito claro, nesse caso muito triste do Lito Sousa, como essas doenças são agressivas. Elas podem evoluir muito rapidamente, como a dele, ou muito lentamente, como o Alzheimer. Em todos os casos, há alterações nessas proteínas dos neurônios. Enquanto não entendermos bem por que isso acontece, será difícil desenvolver um medicamento direcionado ao alvo, porque ainda não sabemos qual é esse alvo”, explica Aline. Lito Sousa é dono do canal 'Aviões e Músicas', no YouTube, onde explica, em linguagem acessível, como funcionam aviões, procedimentos de segurança, turbulências e acidentes aéreos. Reprodução/Redes Sociais Busca por tratamento experimental O Ministério da Saúde pediu a inclusão do influenciador em um estudo experimental nos Estados Unidos. Segundo nota enviada à GloboNews, o governo contatou pesquisadores americanos para tentar viabilizar a participação dele em uma pesquisa. Antes disso, Mila Seidl, esposa de Lito, contou que a família havia procurado o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o Itamaraty para pedir apoio. Uma das possibilidades era um estudo da farmacêutica Ionis Pharmaceuticals. A empresa, porém, informou na terça-feira (25) que a pesquisa não recruta mais participantes. A outra opção é o estudo PRiSM, desenvolvido por pesquisadores ligados às universidades de Harvard e MIT. A família relatou contatos com os dois grupos. Ambos os tratamentos tentam reduzir a produção da proteína que causa a doença. No caso do PRiSM, uma tecnologia genética funciona como uma espécie de “GPS”. Ela ajuda as proteínas da célula a localizar e destruir o material que gera a doença. A pesquisa está em fase inicial. Em abril, começou a fase 1 dos testes em humanos, com 15 voluntários, para avaliar a segurança da substância. A DCJ é extremamente rara. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 547 casos confirmados entre 2005 e 2021. Desse total, 202 foram em São Paulo, estado com o maior número de confirmações. Pesquisa vai continuar no Sirius O trabalho com a proteína segue no Sirius. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) têm novos experimentos agendados para o fim de setembro utilizando outra técnica disponível no Sirius, na linha de luz Sapucaia, chamada SAXS. “As perguntas em aberto para as doenças priônicas também permanecem sem resposta em muitas outras doenças neurodegenerativas. Temos utilizado o Sirius para fornecer informações estruturais e dinâmicas sobre essas proteínas", detalha Aline. Entenda como funciona o Sirius, o Laboratório de Luz Síncrotron Infográfico: Juliane Monteiro, Igor Estrella e Rodrigo Cunha/G1 VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas